|
|
Decide estudar Filosofia, mas não chega a concluir o curso, antes, começa a trabalhar como gestor político e empresarial. Em 1996, assume a presidência da Fundação para a Divulgação das Tecnologias da Informação, um desafio que abraça com gosto e destreza. O percurso de Mário Franco é a prova viva de que a vontade e a determinação são a fonte do sucesso. |
| |
Entrevista com Mário Franco (FDTI)
Decide estudar Filosofia, mas não chega a concluir o curso, antes, começa a trabalhar como gestor político e empresarial. Em 1996, assume a presidência da Fundação para a Divulgação das Tecnologias da Iinformação, um desafio que abraça com gosto e destreza. O percurso de Mário Franco é a prova viva de que a vontade e a determinação são a fonte do sucesso.
Em que contexto aparece a FDTI: Fundação para a Divulgação das Tecnologias da Informação?
A FDTI é uma Fundação instituída pela Secretaria de Estado da Juventude e constituída pelo Instituto Português da Juventude e pelo Instituto de Emprego e Formação Profissional, com o objectivo de divulgar as Tecnologias de Informação e da Comunicação (TIC) junto da população, em particular dos jovens, mais particularmente daqueles com dificuldades de acesso às mesmas. Por isso, privilegiamos as zonas do interior do país, e pessoas que, eventualmente, estejam excluídas do sistema: do ensino, em processo de procura de emprego, ou aquelas que, estando a trabalhar, têm dificuldades de acesso. Por outro lado, o que se verifica é que, como há uma grande lacuna em Portugal na divulgação, na informação e na própria formação na área das tecnologias, acabamos por funcionar como suporte de muitas empresas e entidades, que nos procuram para beneficiar dessa formação.
Encontram-se, estrategicamente, colocados em diferentes pontos do país?
Temos delegações em todos os distritos e nas duas regiões autónomas e temos centros em 200 pontos, cobrindo todo o território nacional. E, através de um acordo com os países de língua oficial portuguesa, estamos presentes também aí. Temos, ainda, um centro em Paris, que trabalha com uma associação de lusodescendentes.
Qual o principal objectivo a que se propõe a FDTI?
A divulgar as Tecnologias de Informação e Comunicação, através de cursos de formação, por forma a dar às pessoas a capacidade de trabalhar com elas. A nossa ideia não é divulgar apenas os temas, através da organização de simpósios e congressos, é objectivamente fazer a formação, ensinar as pessoas a trabalhar e a utilizar as novas tecnologias no seu dia-a-dia.
A quem se dirige?
De uma maneira geral, a toda a gente. Mas o nosso mercado principal são os jovens.
As pessoas precisam de apresentar habilitações mínimas?
Hoje, isso é irrelevante. No ano passado, formámos 36 mil pessoas.
E os cursos são reconhecidos e certificados?
Estamos numa área muito nova em que é difícil sintetizar em termos de certificação a formação que se dá. Nós oferecemos uma quantidade de cursos. Fazemos a formação dos formadores e produzimos os nossos próprios cursos. O que é importante é que as pessoas aprendam. Dentro desta área há uma vasta oferta: nas Universidades; a Formação Profissional, onde nos enquadramos; na própria indústria, como é exemplo a Microsoft. Os nossos cursos são certificados e reconhecidos pela indústria. Por exemplo, o curso de Autocad é certificado pela Autodesk.
E em termos de procura?
Há uma grande procura, assim como há uma grande diversidade.
E depois do curso, existe algum tipo de acompanhamento dos formandos?
No caso da formação para formadores, tentamos acompanhar e tentamos, inclusive, que as pessoas cá fiquem a trabalhar durante um tempo. Na formação para as restantes pessoas, é impossível fazer esse tipo de acompanhamento, até porque a maior parte delas vêm fazer formação com um objectivo concreto: ou estão a trabalhar, ou são estudantes que precisam de formação complementar para as suas actividades. Basicamente, o que oferecemos é uma formação que permite às pessoas uma melhoria na qualidade formativa que, depois de apreendida, as ajuda a que sejam, elas próprias, a desenvolver as suas capacidades. Hoje em dia, quem quiser dedicar-se à área das tecnologias de informação, seja em que sector for, só não trabalha se não quiser.
A FDTI dispõe de diversos programas de trabalho, quer falar de cada um deles?
A INFORJOVEM é o mais importante e é um programa essencialmente virado para a formação e sensibilização das pessoas para a área das tecnologias da informação e da comunicação. O GALILEU é um programa de divulgação científica. É um programa que tem mostras, tem tido apoio a projectos muito concretos de realização pequenas experiências científicas de escolas, que permitem aos jovens conhecer a Ciência enquanto actores, enquanto produtores de uma experiência. O DIÁLOGO é um programa que visa promover a videoconferência na net.
Este esforço de divulgação e promoção das novas tecnologias tem resultados positivos? As pessoas informam-se, procuram e aderem?
Neste momento, esse esforço é essencial e necessário. Primeiro, porque estamos a abrir um caminho a um conjunto de pessoas que por aqui têm passado e a quem, depois de uma formação complementar, possibilitamos serem profissionais na área da tecnologias da informação. Em muitas empresas, no sector das tecnologias da informação, encontramos gente que passou por aqui e isso é satisfatório.
A caminho de uma sociedade que se quer cada vez mais de informação que, aliada às TIC, pressupõe um trabalho ao nível da aprendizagem, acha que as pessoas estão sensibilizadas e dispostas para esse novo desafio?
Acho que ainda há muito por fazer. Há muitas áreas em que a maior parte dos intervenientes não estão conscientes da importância do papel que as tecnologias da informação e comunicação podem ter no seu trabalho, e ainda vai demorar muito tempo para que isso aconteça. Tal passará por um conhecimento da própria tecnologia, ou seja do conhecimento básico de como funciona o computador, o sistema operativo, as aplicações, a Internet,... Há, ainda, o perigo, que é preciso ultrapassar, que é a Infoexclusão. Nomeadamente ao nível das estruturas sociais, essa realidade é muito preocupante. No campo económico e empresarial tem havido, apesar de tudo, um esforço muito grande de uma modernização e de um acompanhamento. Nas estruturas sociais e culturais, há uma série de entidades que ainda não perceberam a importância crescente desta área.
Falou de infoexclusão. Não pensa que a dicotomia do inforico / infopobre tende a agravar-se?
Não devemos fazer essa divisão em termos de mundo rural e mundo urbano. Há franjas urbanas muito mais distantes das tecnologias da informação do que outras rurais. O problema passa pela educação, pela informação e, acima de tudo, por um esforço que tem de ser feito ao nível da divulgação e da construção de projectos, programas e planos que visem utilizar as tecnologias com vários fins. Exige um esforço de disponibilização da tecnologia, assim como do aparecimento de propostas concretas de utilização dessas tecnologias com um fim útil. A partir do momento em que existam serviços úteis, as pessoas acabam por, pouco a pouco, aderir. Há, na minha opinião, um perigo enorme se não for feito esse esforço.
Neste novo mundo da Web não começa a haver um certo exagero de projectos que não acrescentam mais valia e, por isso, não conseguem vingar no mercado da net?
O próprio mercado vai seleccionando o bom do mau. O caminho tem uma enorme potencialidade, só que há muitos projectos, e muitos do mesmo, há pouca inovação, há poucas propostas com serviços. Nós entramos numa fase em que é muito importante o desenvolvimento de serviços. Há muita informação dentro da Web, mas por exemplo o comércio electrónico está pouco explorado, o número de listas de numeração, as temáticas, a personalização do correio electrónico, as listas de distribuição moderadas. No quadro da comunicação, há pouca qualidade e personalização dos grupos de discussão. Actualmente, os fóruns de discussão não têm um objectivo muito claro, funcionam mais como pontos de encontro. Penso que vamos chegar a um ponto em que a pessoa vai à Web e resolve os seus problemas.
A Web funcionaria, então, como um consultor...
... Mais, como um gestor de problemas: Eu entro no site e entrego-lhe a solução de problemas concretos, como hoje faço quando vou a uma repartição ou a uma loja, em que vou lá e trago o meu problema resolvido. Actualmente, vou a um site e, na maior parte das vezes, tenho pistas mas não encontro soluções. Ainda não há muito a noção de que os serviços funcionam interligados, por isso é que são digitais e virtuais, e que a criação de comunidades virtuais de interajuda concreta, de resolução de problemas, é fundamental. Eu não vou poder passar o tempo todo a navegar de site para site, eu quero encontrar um site que me resolva os problemas, o site tem de ser suficientemente dinâmico e a oferta suficientemente forte no sentido de conseguir fidelizar a comunidade que o procura.
Na sequência da assinatura de um protocolo entre o Ministério da Ciência e Tecnologia, a FCCN, a Telecel e a Sun Microsystems, para o lançamento de um milhão de caixas de correio electrónico gratuitas, o ministro Mariano Gago procedeu à analogia com a história do telefone, defendendo que vamos chegar ao ponto em que todas as famílias terão pelo menos um endereço electrónico? Concorda?
Tudo o que seja feito em prol do uso das novas tecnologias é muito positivo, mas mais importante é que essas iniciativas sejam acompanhadas de serviços. Um serviço de mail, pode ser muita coisa... Um servidor de mail é um princípio de constituição de uma comunidade virtual. Os serviços que o acompanham é que são o modelo de desenvolvimento do projecto, seja ele qual for. Se forem eficazes, então, fidelizarão a comunidade. É este o modelo de desenvolvimento na net. A comunicação, na net, é uma coisa natural, há que explicar é como é que através dessa comunicação eu acrescento valor aqueles que a usam. A questão, aqui, não se trata de comunicar, trata-se de desenvolver serviços úteis, que devem ser o mais imediato e personalizado possível. Esse será o caminho essencial da net ...
Que papel atribui à Fundação na divulgação das TIC, em geral?
Temos procurado divulgar outros aspectos científicos e tecnológicos que permitem perceber a Ciência e a Tecnologia não apenas como um produto, algo que se carrega no botão, mas como um esforço. Essa é a grande mensagem que pretendemos transmitir: o computador é um instrumento de trabalho e não um fim, é produto de um esforço, individual ou colectivo, e não apenas um produto pronto a ser consumido. Outra tarefa fundamental, é proporcionar formação àqueles que, em outras circunstâncias, não teriam oportunidade de estudar e trabalhar as novas tecnologias.
Cláudia Rodrigues
Redacção do
TerraNatal